O GRANDE HOMEM
O menino olha a rosa, temeroso. Ela se agita com o vento, cada vez mais perfumada.Os lábios prensados entre os dentes pedem o que a mão não quer fazer. Está tão perto, se esticasse um pouco mais o braço...
- Vamos, filhinho, pegue a flor.
Mas flores são coisas pras meninas. Seria tão constrangedor...
- Não.
E abaixa o braço depressa, antes que um olho de vidro e um estalo gravem pra sempre que ele, ele que já é quase um moço, se aproxima de flores.
- Não mamãe! Isso é coisa de menina.
Era o que certa vez lhe haviam dito e era mesmo verdade. Sempre via as meninas com flores nas lancheiras, nas pastas, nos livrinhos... Os meninos não! Carregavam suas pastas sempre cheias de máquinas fortes, de puro aço, estampas de carros da última geração
- Mas meu amor, a rosa é tão bonita...
E não é que é mesmo bonita? Ah, por que tinha que ser tão bonita...
- Não, mamãe!
Toda vermelha... E o braço está tão perto...
Mas seu pudor só permite tocar as folhas. Sente o perfume, no galho os espinhos, bem na ponta dos dedos... E os dedos agora teimam em procurar a rosa.
- Não vou pegar não!
- Então vamos embora!
A mãe se impacienta e o toma nos braços. É melhor assim.
Mas por que então esse nó na garganta? É tão bonita... E ele a quer, sabe que quer... Como dói querer! Mas acontece que homem não chora, não chora, chora...
É mentira!!! O rosto molhado prova.
Um pulo certeiro e já está no chão. Corre pra lá, corre... As rosas passam tão rápido...
Não é mais o desejo de ter: está apaixonado. Como todos os dias nos apaixonamos cegamente pelo que é bonito.
Escrito por Raquel às 06h20
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