ANITA
Roubei! Tenho uma culpa de pluma e uma alegria muda: roubei.Com a displicência dos que roubam rosas em jardins cercados. Escondo meu crime, meu rosto vermelho, meu pecado alegre. E sorrio, menina. Roubei e guardei. Como posso estar feliz com algo que não me pertence? Como posso esquecer que, uma vez cortada, a rosa está fadada à morte? Mas coloco num jarro de águas claras e espero. Meus olhos de vidro cheios de ternura... As pétalas vermelho-vivas. Coloco meus dedos entre elas e sinto... A textura de um encontro tão suave... Consinto esse instante de rosa nos dedos. Sem pedir. Taquicárdica e invasiva. Dispneica e enrubescida. Entro e pego, pronto, já é minha. Meus dedinhos furados pelas pontas dos espinhos. Não me importo. Carrego a rosa e levo à boca dedinhos latejantes, gotículas de sangue e pétalas vivas. Sorrio: roubei. Tenho rosa nos cabelos, nos dedos, nos lábios. No jarro de vidro que olho embevecida. Ela ainda está viva. E continua se abindo...! Sinto o perfume e sou a criminosa mais feliz do mundo... Tudo tão bonito, tão efêmero... Ela caminha docemente através de segundos, minutos, algumas horas e talvez nem mais um dia. A vida tem dessas doçuras sem cura.
Escrito por Raquel às 15h41
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