OLÍVIA
Gosto de lamber meus textos, como filhotes de urso. Escrevo e se gosto, vou lendo, relendo, mudando vírgulas e pontos, emocionando-me de novo e várias vezes seguidas.
Fico lambendo até que paro de sentir o gosto. Aí sei que é hora de parar... Deixá-lo sozinho pra que ele sobreviva por si só. E sem mim ele caminha no tempo, no espaço vazio das gavetas, no redemoinho da minha bagunça pela casa...
Até que um dia aparece de novo. Não sou eu quem o procura, ao contrário: ele vem até mim e salta em minhas mãos de uma forma inesperada! Aí leio de novo... E dessa vez posso sentir o gosto ou não. Quando sinto, a alegria que me vem é a de um encontro não marcado com um amigo querido. Quando não sinto (ou não gosto), eu guardo. Porque a vida do texto, como a minha própria, não tem sentido... É justamente pela falta de lógica que ele vive... E delira... E pode um dia ser obra-prima.
Escrito por Raquel às 11h39
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BENEDITA
Era um bicho do mato muito esquisito... Quem olhava, tinha até dó. Decerto que era pássaro, disso não se tinha dúvida. mas o caso é que não podia alçar vôo não. De um lado, exibia uma asa grande, colorida, cheia de penas... De outro, uma asa de pintinho pequenina. Tinha garras de ave de rapina e nos olhos, aquele brilho opaco d'água de rio lamacento, desses que a gente nem com muito esforço consegue ver o fundo, e se entra, tem que saber nadar! Pois o bicho era mesmo esquisito e quem olhava, tinha até medo.
Tinha gente que queria as penas coloridas pra fazer enfeite... Mas eu olhava mesmo era pra asa de pintinho... Tão mínima, coitada. Como é que podia? Tinha gente que fingia que não via e tinha outros que falavam que era coisa endiabrada, mas eu nem quis saber disso. Cheguei bem perto, sem o menor medo nem nada, olhei bem no olho e disse pro danado do bicho:
_ Voa!
Um dia ele conseguiu...
Escrito por Raquel às 11h25
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LAURA
Por exemplo:
Quando a vida der "Pause", a gente pode respirar. Antes não. Parece complicado, mas é bastante simples, na verdade.
O manual de boas maneiras afetivas e emocionais funciona assim: Digamos que você esteja numa situação dificílima e não saiba o que sentir nem como agir... Basta procurar por ordem alfabética. No caso "A" de "Angústia" pode servir bem. Abre-se na página indicada pelo índice. Em seguida procura-se (também por ordem alfabética) a situação em meio à qual a Angústia se desenvolve. Uma vez identificada, ela requer determinada conduta emocional, ou seja, tipos de sentimento ou ressentimento ou consentimento que serão prontamente sugeridos pelo manual, bem como a ação subseqüente mais adequada a cada caso.
...
Um dia ela percebeu que o brado retumbante de Dolores e as loucas tristes (algumas sorridentes) dizia que a vida, que não faz o menor sentido, é boa pra caralho!!!
Escrito por Raquel às 11h11
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