MYRNA
Observo atenta : dentro de mim, a alma inquieta. Ela coloca sua túnica branca de doente e caminha confortavelmente em corredores cheios de sol, o tecido de algodão macio...
Ela abre portas no chão, entra em buracos escuros e úmidos. Então abre bem os olhos, perplexos, cheios de dor, tentando captar o irreconhecível na penumbra. Depois sai, sempre quieta e deslizante em chão branco de mármore.
O que procura? Não sei dizer. Só a vejo deslizando, componente indissolúvel de uma estranha mistura de mundo, plasma e mármore. Por que não se dissolve? Por que não faz parte de tudo? Sem resposta, continua muda, inacessível, deslizando pelos cômodos vazios. Cabelos soltos, longos... Não consigo ver com nitidez o rosto, mas certamente não se parece comigo : tem os traços suaves e olhos claros. Com um esboço de sorriso, levanta um braço em gesto lento e observa os dedos com ternura. Ela não se conhece ainda em todas as suas partes, observa-se com suavidade. Seus pés são frios, mas o ar ao redor está morno do sol que entra pelas frestas... E de tão calma e quieta – em sua casa de doente – sorri com ar de quem sabe, vai deslizando suave e me pede silêncio.
Mas ela não dorme, tenho certeza disso! Durante a madrugada, é quando mais tem estado acordada, incansável, decifrando sonhos ou conspirando obstinada em mundos inconscientes.
Estranhamente parece não me querer por perto, tentando enchê-la de comprimidos. Mas tenho medo, ela está doente! E desse estado convalescente pode sair com desejos infinitos... Ou tecer lenta um casulo impenetrável, onde se dorme sem ruídos.
Escrito por Raquel às 16h41
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