ELISA
Quando Elisa Maria foi deixada, a sensação que lhe sobreveio foi de amputação do braço esquerdo. Subitamente, a ausência revestida em angústia culminou em manifestação física e incontestável da perda de um membro superior ( no caso, o braço esquerdo ).
Argumentos estúpidos como, por exemplo, o fato de não se tratar do braço direito e portanto o infortúnio deveria parecer-lhe menos grave – uma vez que era destra – foram apresentados repetidamente sem sucesso.
Estranhos sintomas complementares – como dor nas pontas dos dedos do membro amputado – foram relatados por Elisa revelando clara negação de seu estado o que nos leva a crer em : dificuldade de lidar com perdas, sensibilidade aumentada, auto piedade e capacidade reduzida de adaptação às circunstâncias adversas com requintes de crueldade.
O quadro pode evoluir com remissão espontânea, mas em geral um rigoroso tratamento é o mais adequado: suporte afetivo de amigos sinceros ( de preferência dotados de inteligência e sensibilidade); afastamento de atividades, pessoas e lugares que evoquem o fato; bons filmes; leitura de qualidade. Chocolate e sobremesas preferidas podem ser usados em alguns casos, porém em doses homeopáticas. Referências de gostos, cheiros e sensações da infância podem ser reconfortantes, mas devem ser usadas com cautela ( O doente não deve ser estimulado a agir como criança indefesa ou emocionalmente incapaz ). É também de suma importância afastá-lo de familiares perversos com seus comentários esdrúxulos e inadequados.
A maior parte dos casos responde bem ao tratamento não havendo necessidade de medidas mais drásticas.
Os casos mais graves, no entanto, podem ser irreversíveis e há aqueles em que o dano permanente é convertido ( voluntária ou involuntariamente ) em troféu que será carregado e exibido à procura insaciável de compaixão pelo resto da vida. Há também casos gravíssimos que evoluem com falência emocional e insuficiência psíquica. Estudos sugerem que, em casos dessa natureza, o único tratamento efetivo seria a prática de assassinato – seguida de enterro e luto do objeto perdido – após a qual a sensação de amputação do membro desapareceria. A prática mencionada apresenta a vantagem de que não precisa necessariamente ser realizada em sentido literal. Uma realização metafórica da mesma apresenta benefícios semelhantes e tão efetivos quanto.
Elisa Maria, no entanto, não teve acesso ao tratamento devido a um isolamento voluntário. Retornou ao convívio social e às atividades rotineiras após meses de reclusão como se nada tivesse acontecido. Faleceu ao longo dos anos, serena e resignada, de alma mortalmente ferida.
Escrito por Raquel às 15h04
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|