CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
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Amar o que o mar traz à praia, e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia.
Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante. E amar o inóspito, o áspero, um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta... distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão. E na concha vazia do amor, a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesmo de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Escrito por Raquel às 19h44
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