VIDA MENOR - Carlos Drummond de Andrade
A fuga do real. Ainda mais longe, a fuga do feérico. Mais longe de tudo a fuga de si mesmo. A fuga da fuga. O exílio. Sem água e palavra. A perda voluntária de amor e memória. O eco, já não respondendo ao apelo, mas a este fundindo-se. Nenhum gasto de tecido, ausência dele. A mão tornando-se enorme e desfigurada, desaparecendo. Nem braço a mover-se, nem unha crescendo... Não a morte, contudo, mas a vida. Vida captada em sua forma irredutível. Vida a que aspiramos como paz no cansaço... Não a morte: vida mínima, essencial. Um início, um sono... menos que terra, sem calor, sem ciência nem ironia. O que se possa desejar de menos cruel... Vida em que ar, não respirado, me envolva... E as confusões entre manhã e tarde, já sem dor. Porque o tempo não mais se divide em sessões. O tempo, elidido, domado. Não o morto, nem o eterno ou o divino... Mas o vivo, pequenino, calado. O indiferente e solitário... Vivo. Isso eu procuro.
Escrito por Raquel às 21h03
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