SOFIA
Vendo meu corpo aos prazeres mais baratos. E devoro caixas de chocolate... Esparramo-me preguiçosa num sofá macio e contemplo o nada durante horas... Sei que sou medíocre em tudo o que faço. E pior: medíocre a ponto de ser quase boa. Os regulares ne aplaudem... E eu os desprezo. Os bons me rejeitam ou então me ensinam, se apiedam... E então sinto nojo. Detesto ser aplaudida, tenho nojo de ser criticada. E saber o quanto sou medíocre talvez seja o meu único álibi... O que certamente resgata uma considerável parte da minha dignidade.
E como eu... Tantas prostitutas de familia cheirando a perfume francês... Outdoors ambulantes cuidadosamente apreciados por homens baratos, escultores do corpo, comprando hormônios, vendendo saúde e quanto riso, quanta alegria e por aí vai. Eu, pelo menos, tenho a dignidade de me declarar prostituta e vendida e reconheço ainda que prego as filosofias mais baratas. Meu cabelo é uma farsa, meu nariz é plástica, meus olhos nunca foram azuis... Minhas roupas são a melhor propaganda das mais variadas marcas... Meu raciocínio é arrastado... Minha bagunça faz um lixo no meu quarto. Sou péssima por ser quase boa. Sou estética. Sou essa... prostituta. Sou esse... ente assustado com o mundo... Vivendo com prazer o consumo e vendendo sociedade alternativa.
Mas tenho um sino dos ventos na varanda do apartamento em frente... Um sino dos ventos...
Escrito por Raquel às 13h38
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