Na sala de espera havia um sofá macio e alguns quadros. Um deles exibia uma paisagem de rio, cachoeira, qualquer coisa com água...Os outros eram ininteligíveis! Absolutamente abstratos. Símbolos são coisas pessoais demais, pensei. Aceito, então, a combinação de formas e cores dos tais quadros sem pedir maiores explicações. E acabo olhando de novo os quadros com um certo ar de interesse forçado porque vem um careca de óculos na minha direção e quero que ele pense que gosto de arte... E na verdade gosto, mas não agora, não com essa placa no rosto: gosto de arte, veja como sou interessante! E me sinto ridícula, transpirando cultura por todos os poros. _ É Chagall? Pergunto. Não era. Mas ele conhecia Chagall e gostava. Mas claro, como não? Isso era fácil presumir. Ele também provavelmente lia Dostoiévski, James Joyce e Clarice Lispector :"Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço voando por cima das casas". E bobos são os que se envolvem com arte. E bobo também deveria ser o psiquiatra, me olhando inocente por trás dos óculos. Tão previsivel, coitadinho... Ele tenta uma aproximação simpática: _ Mas tem realmente uma certa semelhança... Você gosta? O olhar dele curioso. Será que eu o impressionava? Mas prefiro quadros barrocos, pensei. _ Muito! Respondo satisfeita. Mas são tão abstratos... Nem parecem retratos... Definitivamente os barrocos. _ Entre. Vamos começar.
Escrito por Raquel às 20h44
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