TININHA
Ver e esquecer...
Quando eu era pequena e viajávamos pela manhã bem cedo, via manchas brancas no verde da paisagem ao redor e gritava:
_ Olha! São as nuvens que desceram!
Intimamente eu sabia que também as nuvens precisavam de descanso. Então deixavam o céu e se deitavam nos pastos, nas florestas, nos descampados...
_ Não são nuvens, Tininha, é a neblina – dizia Dona mamãe docemente.
_ Ah, é a neblina...
Repeti, na verdade, bem pouco convencida. Dona neblina que me perdoasse, eu ainda preferia as nuvens.
Ao meu lado, as meninas riam muito. As meninas, minhas irmãs mais velhas, sabiam de tudo. Os adultos já tinham explicado a elas muitas coisas. Eu não entendia e chorava.
Alguns anos depois tive as primeiras aulas de ciências... Então minhas nuvens rasteiras foram impiedosamente transformadas em “ massas de vapor d’água que se formam em regiões com elevada umidade e baixas temperaturas”.
E a professora continuou:
_ E elas se formam especialmente à noite, quando a temperatura está mais baixa.
Quis retrucar, mas tive medo. Afinal a professora seria capaz de rir até mesmo de Dona Mamãe, que falava em neblina...
Mas, meu Deus, se havia nuvens no céu e elas choviam e molhavam a terra, os lagos, as plantas... E depois se evaporavam, leves de novo, muito brancas, algumas antes mesmo de voltar ao céu... Então era verdade! Por que todos riam? Por que não aceitavam o pousar das nuvens?
Era verdade... E isso eu sabia desde quando via o mundo pela primeira vez. Era como se, por puro instinto, eu pudesse adivinhar os movimentos da vida... Simplesmente. Mas o pacto com o mundo é: Ver e esquecer. O mundo tem medo de se descobrir.
Nuvens pesadas, saturadas, precisam de descanso e deitam nos pastos, nas florestas, nos descampados... O mundo ficou bravo porque não esqueci!
Bravo sim! E sorri pra mim quando falo em neblina... E finge que acredita e até bate palmas se digo: “Massas de vapor d’água...”
Ê, mundo sabido... Carrega a palmatória no cinto, me ensinou a ficar quieta.
Ê, distraído... Tem mais gente que viu e não esqueceu. Às vezes nos encontramos... Um momento bonito. E dizemos o que vimos e sabemos e sentimos... E não esquecemos! Sabemos tão pouco... E nos perdemos... Em um pedacinho de terra que gira em torno de uma estrela.
Mas o mundo se sente traído... E eu peço desculpas. Eu compreendo o seu medo assim como sei que, apesar de tudo, ele compreende as nuvens... As minhas nuvens e o meu direito de chorar.
Escrito por Raquel às 11h14
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