BIANCA
Corre cutia, de noite e de dia, debaixo da cama da sua tia! Súditos da rua, em cerimônia importante. _ Pra dentro, todos! Já! Ah, não. Quem ousa interromper a melhor parte? Corre cutia, de noite e de dia... _ A sopa tá fria! _ Ah... _ E a Bianca, o que vai ser quando crescer? _ Garimpeira e florista! Corre cutia, de noite e de dia... _ Chega, minha filha! Olha a janta que esfria... Corre... _ Meu deus, e essa tosse? _ Chama o doutor fulano! E lá vem o doutor, de roupa impecável. Lá vem o doutor fulano, médico da família. Homem de bem, isso está claro, vê-se mesmo pelo gesto correto ao ajeitar os óculos com dignidade. _ Impecável!
_ Mas, afinal, por que franze a testa, esse doutor fulano? Ao certo, ninguém sabe. Não importa, a dignidade é branca. _ Vai ser médica, uma beleza de médica... Igualzinho ao seu doutor fulano... _ Pode ser, quem há de dizer? _ Pode não ser? _ Mas vai ser! Corre cutia, meu deus, quantos dias! Corre, gira... quando é que vão deixar o lenço atrás de mim? _ Não vale abrir o olho! Só pode olhar quando eu mandar! Grita uma súdita da rua, minha cúmplice na brincadeira de roda, o lenço amarrotado na mão suada. Pisca pra mim um olho e me alegro toda na esperança de que o lenço estará comigo na próxima... _ Não vale abrir o olho! Só pode olhar quando eu mandar, minha filha... Diz um adulto assustado com o mundo... Manda todo coerente as coordenadas pras subordinadas. _ Faça uma frase! Impera a mestra na escola. _ Gosto de teatro, mas tenho medo. _ Agora classifique-a! _"Gosto de teatro" : oração principal..."Mas tenho medo" : coordenada sindética adversativa. Coordenadas e mais coordenadas me afogam. As expectativas sempre subordinadas. _ Cuidado, minha filha. Esse pessoal que faz teatro não é muito certo. Não quero você nesse meio. Corre cutia... _ Mas quando? Quando vão deixar o lenço nas minha costas? Não era na próxima? Ah, os que fazem teatro... Esses adoráveis não certos do teatro. _ Corre, minha filha! A dignidade é branca. Tantas coisas esquecidas nos quadros da escola... Lembranças confusas, enfumaçadas, cheiro de giz, livros guardados. predicados verbo-nominais. Hoje há verbos mal conjugados, a pressa permite. Processos xifóides, hepatoesplenomegalias, eritroblastoses... A medicina tem sons engraçados. Engraçada sou eu, tentando agarrá-los ao mesmo tempo em que os ponho pra fora. Que posso fazer? Eles não pedem licença, me invadem tão bruscos que eu os mando de volta! Porta na cara, o pronto-socorro me olhando de esguelha, eu sem bisturi e estetoscópio, eu com roupa azul. Mas apesar de toda a resistência, vou descobrindo, entre alívio e encanto. Vou descobrindo coisas muito mais humanas que dignas: a arte que é branca. _ A vida, minha filha, é só uma. Com a vida dos outros não se brinca, nem com a sua! Moleca, moleca de rua, pulando na calçada. _ Ei, agora é a minha vez! estão passando a minha vez! Mas não posso gritar mais alto, não sou dona da brincadeira... _ Não brinco mais! Antes penso que digo... Sou prudente pra não dizer... Penso que triste seria voltar pra casa sozinha e de mãos vazias. É só cautela, me consolo... Mas a verdade é que tenho medo. Corre cutia, de noite e de dia, de noite e de dia... Corre!
Escrito por Raquel às 12h01
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