ABIGAIL
Um dia ela resolveu cavar um poço fundo e nele mergulhou. Lá ficou à espera de alguém que lhe estendesse a mão e o primeiro sorriso ou o primeiro beijo que recebesse com ternura ela logo transformava numa imensa corda salvadora. E os seus desejos continuavam : queria não só ser puxada pela corda como também aquecida perto de uma lareira, roupas secas, agasalho, carinho e água. Água limpa.
Qualquer corda era bem-vinda, na verdade esperava por ela com ansiedade e medo... Na verdade gritava e qualquer pessoa que ouvisse serviria. Mas seus gritos altos, seus soluços baixos, seu choro infantilizado afastavam de si o mundo.
“Elefantinho no poço...” Era o tom da brincadeira de criança.
“Elefantinho no poço... Poço!” Fundo, tão fundo... Aprendeu a nadar no poço. Aprendeu a olhar do poço. Aprendeu a chorar e engolir os soluços. Pobre bicho enorme e doce... Saber que pode sair sozinho é seu segredo mais triste.
Escrito por Raquel às 10h15
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BRANCA
Feira de loucos: a biblioteca. Ela tem o silêncio do barulho lá fora... E o barulho é de carros, gente e aves. A biblioteca... Livros empilhados que me aguardam ansiosos... Expectativa e preguiça. Livros coloridos, tantos, tão bonitos... E no entanto pesados, verdadeiros tijolos que poderiam se converter em armas... perigosos, terríveis. Sinto-me ameaçada em cada página macia, sim, eles me intimidam! E no entanto não saio correndo assustada, como o bom senso mandaria. Ao contrário: tento uma aproximação vagarosa, quase tímida, passo os dedos com suavidade pela capa, abro um deles cautelosa, agora é tudo ou nada, fecho por um instante os olhos, levo as mãos que tremem ao rosto esperando que o pior aconteça e no entanto... Ele não me devora! Constato entre satisfação e alívio que já cumpri a pior parte: abri-lo. Ele jaz aberto à minha frente, esperando. Sou grata por ainda estar viva e sei que agora devo ir adiante: leio a primeira página... E sinto que uma ponte se forma, começamos a fazer parte um do outro. Ele confia em mim... Eu me entrego a ele agradecida. E a vida continua.
Escrito por Raquel às 10h05
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