AUGUSTA
Acordou confusa no meio da noite sem saber onde estava. Apalpou, sonolenta, o sofá e distinguiu o telefone a seu lado. Ela havia dormido na sala, numa posição tão incômoda, dobrada sobre si mesma como um pequeno caracol ou feto que agora a musculatura do corpo todo reclamava em espasmos doloridos. Acendeu o abajur para se localizar melhor naquele espaço repleto de cinzeiros sujos, garrafas de vinho e coca light vazias, pacotes de salgadinhos. Encarou o telefone impassível a seu lado: ele continuava mudo, estático e com ares de superioridade. Sim, ele era superior a ela, que se escravizava às suas vontades e corria aflita para atender a qualquer ruído por ele produzido.
Mas há dias ele simplesmente se calara... Ele se transformara naquela presença muda e estática ao lado da qual ela dormia um sono fatigado e ao mesmo tempo leve, atento a qualquer ruído. Não agüentou mais a tensão que se instalara entre ela e aquele objeto mudo, inatingível, e num gesto de desespero automático correu ao banheiro para escovar os dentes. A pasta cremosa espumava em sua boca à medida em que movimentos rápidos e vigorosos tiravam toda a sujeira daqueles dentes que – pelo menos os dentes – ela queria que fossem muito claros. Onde estará a toalha? Olhou com certo nojo o tecido felpudo caído em um canto ao lado da pia, meio encharcado de água suja, sobre o qual manchas de batom e rímel se destacavam de um fundo creme pálido. Enxugou a boca com papel higiênico, pareceu-lhe mais limpo e prático. Sorriu satisfeita com o trabalho: dentes perfeitamente brancos! E agora? Vazio. O telefone simplesmente não tocava. E era tudo o que ela mais queria... E já nem sabia ao certo o que falar, mas queria... Porque queria... Porque queria. A vida perderia totalmente o sentido se ele não tocasse... Porém pensou assustada: Mas também perderia se ele tocasse, já tinha perdido. Então por que queria?
Lembrou-se de uma cena triste que vira outro dia no supermercado. Encontrou, certa tarde, a vizinha, uma senhorinha simpática de meia idade, vestido florido e óculos com aro de tartaruga, fazendo compras vespertinas. Levava nos braços uma encantadora criança de no máximo dois anos de idade, cujos cachinhos dourados emolduravam com ar angelical as bochechas rosadinhas. Perfeito comercial de margarina, pensou divertida enquanto cumprimentava a senhora e estalava um beijo no garotinho.
Não fazia então cinco minutos que ela os havia deixado em pleno estado de graça familiar e caminhado pensativa em direção aos produtos de limpeza quando ouviu, através das prateleiras, um grito desesperado. Seu coração bateu descompassado, era um grito de criança, um grito de desespero e dor. Correu imediatamente ao encontro do garotinho e de sua doce avozinha que deviam estar em apuros, nunca se sabe, num supermercado tão grande, tão cheio de coisas empilhadas, pode perfeitamente acontecer um acidente, pilhas de latas desabando podem mesmo matar uma criança!
E qual não foi a sua surpresa ao encontrar, não um anjinho de asa quebrada, mas uma pequena besta-fera. Aparentemente sem motivos o menino berrava, chorava, rolava no chão, batia em si mesmo e puxava os cabelos num certo estado de transe que poderia ser loucura ou possessão demoníaca. A avó balbuciava qualquer coisa entre as lágrimas que escorriam sob os óculos de tartaruga. Ainda ocorreu-lhe a hipótese de epilepsia enquanto abraçava a senhora tentando acalmá-la e indagando aflita o que deveriam fazer com a criança naquele estado, se deveria ou não tentar conter seus movimentos. A senhorinha, muito atordoada, só conseguiu dizer: Não faça nada.
Nesse momento ela finalmente pôde vislumbrar o que acontecia: A criança se contorcia desesperada porque queria um chocolate que a avó lhe havia negado. O desejo impossível fazia aquela criança urrar de dor como se lhe tivessem dado uma surra.E era só uma pequena criatura humana de dois anos de idade... Uma criaturinha insolente, atrevida e egoísta. Um ser humano em estado primitivo que não sabia aceitar a vida com suas perdas diárias.. Teve pena daquele pequeno anjinho endiabrado.. Teve pena da avozinha assustada...
E eis que então teve pena de si mesma... Que queria porque queria... Porque queria... porque queria.
Escrito por Raquel às 07h43
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RUANITA
Estava sozinha naquele pedaço de mundo perdido no meio do oceano. Procurou na bolsa um cigarro, achou um chocolate, um bloco de papel, uma caneta, um batom, as chaves de casa, a carteira, documentos, uma nota de cinqüenta. Lamentou ainda aquela nota grande pra qual jamais haveria troco caso quisesse cigarros avulsos.
Pensou em usar o bloco e a caneta pra passar o tempo. À espera de que? Não sabia bem. O socorro talvez não chegasse nunca, ela sabia muito bem disso. A única alternativa seria se jogar na água e nadar léguas sem destino. Ou simplesmente ficar. Como ainda não tinha tomado a grande decisão que mudaria definitivamente o curso de sua vida, resolveu esperar.
Esperou... Comeu o chocolate. Passou batom pelos lábios, estalou a língua. Nada. Bloco e caneta novamente. Escrever o que? Um pedido de socorro? Uma mensagem pra humanidade? Uma lição de vida? Mas afinal o que teria ela pra ensinar pra alguém? Pensou nas folhas de papel escrito encharcadas pela água do mar, boiando como folhas do outono, a tinta se soltando do papel como pequenos filamentos de alga marinha. A imagem pareceu- lhe tão linda quanto poética, porém inútil: não escreveria comida pra peixe.
Mas por azar havia uma garrafa vazia e por azar maior ainda ela a encontrou soterrada. Suspirou desconsolada. Sabia que agora seria obrigada a escrever. O destino havia lhe enviado aquele invólucro de vidro dentro do qual suas palavras sobreviveriam ao naufrágio. Tudo adquiria um ar mais grave e por que não dizer, sagrado. Novo suspiro resignado...
SOCORRO! PERDIDA ILHA DESERTA. BARCO URGENTE.
Pensou bem, corrigiu: HELICÓPTERO.
E em seguida sentiu-se patética, arrancou a folha escrita, lançou ao mar exatamente como estava. Teve sua imagem poética, comida para os peixes, e sentiu-se redimida. Em seguida apertou aquele objeto frio de vidro entre os dedos, contra o peito, contra os lábios e sorriu pela surpresa da certeza que lhe assaltava...
MENSAGEM PRA HUMANIDADE :
Escrito por Raquel às 15h26
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