FILOMENA
Nunca mais, nunca mais, nunca mais. A menina pensava alto e enrolava os cachinhos com as pontas dos dedos. Nunca mais... Ela pensava do alto de seus dez anos de idade. Nunca mais vou ser feliz, repetia desconsolada. Pegou Filomena pelo braço e foi brincar perto da janela. Filomena tinha olhos de vidro esbugalhados. Tinha também um sorriso eterno desenhado em lábios vermelhos bem finos. Desejou ser como a boneca, ela sim deveria ser eternamente feliz. Mas a menina era triste. E a boneca sorria. Encarapitou-se no parapeito e pôs Filomena ao lado: Tá vendo, Filó, como tudo fica pequenininho lá em baixo? Parece de brinquedo, mas não é. É tudo verdade.
Na véspera havia sonhado que estava no alto de um prédio, bem no alto mesmo, e brincava com um cachorrinho branco que corria desgovernado. Ele era tão inocente e alegre e rápido... A menina corria atrás dele e sentia uma ternura infinita... Mas ele corria tão sem saber pra onde que a menina teve medo que ele caísse lá em baixo.Teve tanto, tanto medo... Ela tentava agarrá-lo pra protegê-lo mas não conseguia... No último momento ele se dirigia pra beirada do prédio, todo contente, arfante, língua de fora, tomou distância e ia saltar... Foi quando ela deu um grito e acordou em sobressalto... E decidiu que nunca mais seria feliz.
A felicidade era algo desgovernado que pulava do prédio. Sentiu o coração apertado, imaginou a mancha de sangue sobre a qual o cachorrinho estaria estatelado na calçada. E sentiu pavor! Nunca mais, nunca mais, repetia pra si mesma. Mas se Filó caísse lá de cima não haveria sangue, pensou. Filó era só uma boneca e por isso mesmo não sofreria. Mas ela era só uma menina... E sofria. Suspendeu Filó pelo braço e pensou: Se eu soltar agora, ela cai mas não morre... Era só uma boneca. E soltou Filó pelos ares. Filó, Filó, tão bonita, pensou ainda.... De vestido rendado e porcelana. Era só uma boneca, pensava quando se arrependeu no último instante. O som do estilhaço pareceu-lhe ossos quebrados... E a dor que sentiu foi tanta que o coração batia acelerado quando desceu correndo as escadas. Lá estava Filó na calçada, sem sangue, só pedaços de porcelana estilhaçada. Era só uma boneca... Mas a menina chorava. Nunca mais, nunca mais, pensou ainda. Nunca mais ser triste.
Escrito por Raquel às 20h34
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