FRAGMENTOS
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......................falando sozinha. No meio da manhã. No final da angústia. Início de um novo ciclo. Cabeça pra um lado, pernas pro outro, braços soltos caídos. De que era feita a mulher que se partiu? Quais foram os pontos frágeis que se arrebentaram em meio ao maremoto?
O silêncio enlouquece. O silêncio me faz falar sozinha. O silêncio diz frases confusas, enigmáticas, palavras soltas.
Não sei o que é mais mortal: silêncio duro, ensurdecedor, ou palavras-faca-pedra-foice-luvas de pelica.
Morro da pior morte lenta e dolorosa. E renasço mais forte, mais fria, mais madura, mais tranqüila. A angústia vai morrendo comigo nessa vida antiga que vai se esgotando , escorrendo entre os meus dedos e da qual, ainda assim, não me esquivo sem perguntar atônita e dolorida: Mas por que? Mas por que?
" Amar sem entrega". Entrega de que? Entrega em domicílio? Entrega pra quem? Pra que? O que? Entrega-se por acaso a própria vida? E o que é que o outro vai fazer com isso?
" Amor imorredouro" : morreria em si mesmo não fosse um pequeno detalhe, uma pequena letra que muda tudo. Ínfima. Como a diferença entre estar vivo e quase morto. Amado e repelido. Detalhes. Pequenos pedregulhos que desviam levemente o percurso da água.
A palavra escrita que de alguma forma já está morta... Cheia de sentidos e significados cuidadosamente escolhidos e por isso mesmo mais compreensíveis. Mas desprovida de frescor, paixão e vida.
A salvação está... E escrevendo percebo que ainda a aguardo como resquício da educação religiosa da infância. A pequena maldição que me acompanha e me perde e nunca me salva porque nem ela nem ninguém no mundo, nem todo amor do mundo poderiam me salvar. Porque a salvação não existe. Só quando nos permitimos o "estar perdido" sem medo parecemos vislumbrá-la. Mas ainda assim é : "estar perdido" só que com brilho no fundo do olho. E alguma dignidade, afinal.
Escrito por Raquel às 22h31
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