CARTA A UMA BAIANA
Baiana, querida,
É um prazer escrever pra você. Espero que a carta chegue antes que as férias acabem.
Como vão as coisas aí na Bahia?
Aqui eu tenho o céu mais lindo do mundo à noite. Falo sério. Quando anoitece, apago todas as luzes da varanda, vou pro quintal e deito na areia. Então eu tenho o céu todo só pra mim, longe de qualquer vestígio de luz humana, vibrando de estrelas. Impossível! Impossível que a vida acabe aqui. Impossível que em todo o resto do universo não haja pulso, veias, sangue ou qualquer outra anatomia.
E a Bahia? Como vai essa terra que é tanto, tanto que não podia ser mais do que isso e é divinamente isso: Bahia?
Baiana, a sua terra é muito especial pra mim, acredite. A Bahia tem um quê de alegria, magia puramente brasileira que nenhum outro estado conhece. Mas não pense você que eu carrego inconscientemente o preconceito absurdo de que os baianos são adeptos da lentidão e da preguiça. Bem pelo contrário: Pois eu vejo na Bahia o puro ânimo de viver e a certeza de um sangue que pulsa forte. Vejo mesmo por você, minha amiga, minha tão querida baiana... Você que é força e vontade, que tem prazer em fazer as coisas bem feitas, que é toda bonita...
Baiana, se eu pudesse te dizer o quanto você é bonita... Mas você é tão bonita que não acreditaria. Não acreditaria mas teria a delicadeza de não dizer que eu mentira ( você tem passos macios ). É possível que acreditasse numa boa intenção. Mas minha amiga, boas intenções não melhoram o mundo. Nada mais justo que os bons saibam que são bons e as pessoas bonitas que também saibam, ora essa, o quanto são bonitas. Não te parece mais certo do que continuarmos humildemente a expor nossos defeitos?
Estou ouvindo o barulho do mar, estou escrevendo bem em frente a ele. Tenho um amigo querido que nos levou ontem pra passear de barco. Passei o dia inteiro literalmente no mar, cuidando do barco e mergulhando. Valéria, existe um mundo inteiro debaixo das águas! Esse mundo tem uma vegetação extraordinária, bichos intrigantes, pedras, movimentos suaves... Como é necessário e urgente apreender esses movimentos, essa harmonia. Peguei nas mãos um tintureiro. Tive tanto medo de machucá-lo... Sou tão rude... Tão grosseiramente civilizada...
O mar entrou pelos olhos e pela boca. Bebi alguns goles grandes, bons. Era disso que eu precisava: o mar por dentro. Minhas veias são tão frágeis... O coração bate forte e eu não estou me agüentando. Uma veia arrebentou na perna e deixou uma mancha roxa. Exibo-a com orgulho : é a minha vitória muda.
Porque gritar, minha amiga, nesse mundo tão cheio de barulhos é inútil. Essa carta é um grande silêncio, juro. E essa a razão da demora em escrever: eu precisava me preparar... Eu precisava me preparar toda pra você, que é naturalmente bonita.Foi preciso antes lavar o rosto, me perfumar, deixar os dentes brancos e fazer tranças. Escolhi também uma roupa azul, azul bem clara ( o vestido branco não serve mais! ) e só então me senti pronta. Estou bonita e intensa... E permaneço muda. São poucas as pessoas pra quem dou o meu silêncio... E o resto do mundo me encontra assim: muda.
Baiana, querida, que Deus te abençôe e te conserve bonita... E que a tua terra seja sempre e cada vez mais... Bahia!
Um beijo na testa
Escrito por Raquel às 20h16
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