REVERSO


O CONTO DO POÇO

        

          Às vezes sentia-se imensamente confusa com a engrenagem das relações humanas. Sim, ela procurava sempre dar o melhor de si aos outros. E sim, partia do pressuposto de que viver já é por si só uma dor. Então por que não pontuar a dor com alegrias simples, tão efêmeras quanto deliciosas? Por isso sempre abraçava acolhedora, beijava com afeto, estendia as duas mãos e colocava panos quentes. O fato é que nada é simples quando se trata de seres humanos. Passados os primeiros estágios do prazer mais fácil e acessível, mergulham no poço escuro dos prazeres difíceis. No fundo do poço mora a plenitude... Mas isso talvez já seja a morte.

        E ela continuava a dar beijos doces ingenuamente, como se desse o melhor de si mesma... Foi então com grande espanto e dor que percebeu um dia o poço escuro. Sabia por ouvir dizer que ali estava o pior de tudo... E de fato estava. Mas ela não sabia que também o melhor brotava do lodo escuro e fértil. Com que grito de dor abriu os olhinhos assustados quando violentamente foi jogada no poço. Como nunca a haviam ensinado que ali se podia entrar calmamente, tateando os tijolos com cuidado, descobrindo sensações e cheiros e gostos e beber água...  Como sempre procurou evitá-lo... Por medo, por obediência e santidade... Um dia foi violentamente empurrada... E sentiu uma dor insuportável! Chorou tanto... Sentiu-se impotente e fraca. Esperou em vão que jogassem uma corda salvadora, gritou e implorou que viessem buscá-la, mas nada acontecia...

        Aconteceu então que um dia percebeu que os olhos, há muito, já haviam se acostumado ao escuro e podia distinguir, sem dificuldade, tijolos, água, plantas, lodo, insetos. Arrepiou-se toda ao sentir uma barata passear em seus braços, mas dessa vez não gritou. A água fria a deixava um pouco anestesiada e muito acordada, pupilas dilatadas, músculos contraídos. E aconteceu que agarrando-se firmemente às imperfeições das paredes conseguiu subir à superfície.

        O sol brilhava alto e quente num céu de meio-dia. E a mulher que saiu do poço era tão bela quanto outra. E lindamente transfigurada passeou pela cidade... Depois disso foram poucos os seus gestos acolhedores. Ela escolhia friamente a dedo os merecedores de seus afagos. Os outros, ela simplesmente desprezava... E por isso se tornou infinitamente sedutora.



Escrito por Raquel às 22h40
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CARTA A UMA BAIANA

                         Baiana, querida,

                        É um prazer escrever pra você. Espero que a carta chegue antes que as férias acabem.

                        Como vão as coisas aí na Bahia?

                        Aqui eu tenho o céu mais lindo do mundo à noite. Falo sério. Quando anoitece, apago todas as luzes da varanda, vou pro quintal e deito na areia. Então eu tenho o céu todo só pra mim, longe de qualquer vestígio de luz humana, vibrando de estrelas. Impossível! Impossível que a vida acabe aqui. Impossível que em todo o resto do universo não haja pulso, veias, sangue ou qualquer outra anatomia.

                        E a Bahia? Como vai essa terra que é tanto, tanto que não podia ser mais do que isso e é divinamente isso: Bahia?

                        Baiana, a sua terra é muito especial pra mim, acredite. A Bahia tem um quê de alegria, magia puramente brasileira que nenhum outro estado conhece. Mas não pense você que eu carrego inconscientemente o preconceito absurdo de que os baianos são adeptos da lentidão e da preguiça. Bem pelo contrário: Pois eu vejo na Bahia o puro ânimo de viver e a certeza de um sangue que pulsa forte. Vejo mesmo por você, minha amiga, minha tão querida baiana... Você que é força e vontade, que tem prazer em fazer as coisas bem feitas, que é toda bonita...

                        Baiana, se eu pudesse te dizer o quanto você é bonita... Mas você é tão bonita que não acreditaria. Não acreditaria mas teria a delicadeza de não dizer que eu mentira ( você tem passos macios ). É possível que acreditasse numa boa intenção. Mas minha amiga, boas intenções não melhoram o mundo. Nada mais justo que os bons saibam que são bons e as pessoas bonitas que também saibam, ora essa, o quanto são bonitas. Não te parece mais certo do que continuarmos humildemente a expor nossos defeitos?

                        Estou ouvindo o barulho do mar, estou escrevendo bem em frente a ele. Tenho um amigo querido que nos levou ontem pra passear de barco. Passei o dia inteiro literalmente no mar, cuidando do barco e mergulhando. Valéria, existe um mundo inteiro debaixo das águas! Esse mundo tem uma vegetação extraordinária, bichos intrigantes, pedras, movimentos suaves... Como é necessário e urgente apreender esses movimentos, essa harmonia. Peguei nas mãos um tintureiro. Tive tanto medo de machucá-lo... Sou tão rude... Tão grosseiramente civilizada...

                        O mar entrou pelos olhos e pela boca. Bebi alguns goles grandes, bons. Era disso que eu precisava: o mar por dentro. Minhas veias são tão frágeis... O coração bate forte e eu não estou me agüentando. Uma veia arrebentou na perna e deixou uma mancha roxa. Exibo-a com orgulho : é a minha vitória muda.

                        Porque gritar, minha amiga, nesse mundo tão cheio de barulhos é inútil. Essa carta é um grande silêncio, juro. E essa a razão da demora em escrever: eu precisava me preparar... Eu precisava me preparar toda pra você, que é naturalmente bonita.Foi preciso antes lavar o rosto, me perfumar, deixar os dentes brancos e fazer tranças. Escolhi também uma roupa azul, azul bem clara ( o vestido branco não serve mais! ) e só então me senti pronta. Estou bonita e intensa... E permaneço muda. São poucas as pessoas pra quem dou o meu silêncio... E o resto do mundo me encontra assim: muda.

                        Baiana, querida, que Deus te abençôe e te conserve bonita... E que a tua terra seja sempre e cada vez mais... Bahia!

                        Um beijo na testa

                       



Escrito por Raquel às 20h16
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