REVERSO


A FUGA

                       A chuva caía sem tréguas e as calçadas brilhavam úmidas à luz das lâmpadas. Maria Aparecida teve medo do escuro. Parou a fim de recobrar as forças e escorou num banco de jardim. Queria prosseguir mas as pernas finas mal sustentavam o peso do corpo. O rosto quente estampava um olhar doce e agressivo. Sentia a respiração ofegante. O ar fresco perpassava-lhe os pensamentos deixando-a leve e serena.

                        Lembrou-se dos tempos de menina e sorriu. Quando jovem, morara em uma extensa fazenda e dera incansáveis passeios. Agora as pernas estavam fracas. Também pudera... tantos anos se passaram... fazia exatamente trinta anos que ela deixara a fazenda e viera para um grande centro urbano com os pais. Havia tantas luzes que seus olhos se afogaram em imensuráveis expectativas e fantasias. Em seus sonhos de adolescente, ela era cantora e bailarina.

                        Quando Maria Aparecida casou-se, era ainda uma jovem mulher. Adiou temporariamente seus sonhos artísticos. Bastava a simples presença do esposo para que os menores movimentos de seus pensamentos ficassem tolhidos. Não houve tempo para dançar ou cantar: era preciso educar as crianças. Mas os anos se passaram; o marido faleceu e as crianças cresceram. Só Maria Aparecida não viu. Anulara-se tanto e a tal ponto que, quando surgia tempo e espaço para recompor-se, tinha medo de não reconhecer a si mesma. Criava as mais falsas dificuldades, adiava novamente os sonhos, usava-as como subterfúgio para preencher o vazio de seu "matriarcado".

                        Mas aquela tarde de outono seria diferente. Caíram pingos grossos que se estraçalharam no chão. Estrondosos ruídos disseram-lhe "Basta!". E convidaram: "Vem Maria Aparecida, vem dançar e cantar".

                        A chuva cobriu-a por inteiro. Ela caminhou pelas ruas livres, feliz e capaz. Decidiu que iria ao teatro, aprenderia a dançar, a impostar a voz... tantas luzes... receberia muitos aplausos e, ao final do espetáculo, depois que as luzes se apagassem, voltaria para casa tranqüila e contente.

                        Mas Maria Aparecida estava cansada e escorou-se no banco do jardim. O corpo era frágil e não suportava longas caminhadas, A voz rouca doía na garganta. Voltou para casa. Júlia, a filha mais velha, a esperava:

                        _ Que aconteceu com a senhora? Meu Deus, está encharcada!

                        _ Fui à missa e acabei tomando um pouco de chuva. Só isso, meu bem. Não se preocupe.

                        Como não tinha fome, tomou um banho quente e logo adormeceu. Protelara novamente a voz e o corpo para outro dia que Maria nem sabia se viria ... Desapareceu a luz do teatro.




Escrito por Raquel às 21h50
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