ESSENCIAL
" Entre o mistério e o Sem-fim
Equilibra-se um planeta
E, no planeta, um jardim
E, no jardim, um canterio
E, no canteiro, uma violeta.
E sobre ela, o dia inteiro,
Entre o planeta e o Sem-fim
A asa de uma borboleta."
CECÍLIA MEIRELLES
Escrito por Raquel às 22h59
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EM DEPENDÊNCIA OU MORTE
Naquele dia cheguei em casa aos berros, bati a porta com força, chutei a poltrona. Esbravejando como um autêntico pestinha de oito anos de idade, invadi a cozinha para a desgraça de Dona Albertina, a cozinheira, que muito pacientemente suportava minhas diabruras.
A senhora de meia idade era a própria figura da jovem avó, dessas moças que muito cedo tiveram filhos e netos, cuja velhice veio apenas definir melhor os traços da beleza juvenil. Gordinha, porém jeitosa como só ela, andava pela cozinha num balanço gostoso abanando os cabelos presos em duas grossas tranças. Muito humilde, trazia no semblante um olhar duro e sereno. Por trás dos óculos, um par de olhos muito azuis.
Dona Albertina, autoritária como uma segunda mãe, não sabia ler nem escrever, mas era a esperteza em pessoa. Na sua simplicidade e leveza, pegava as coisas no ar, as mais sutis e voláteis.
_ Dona Albertina, se a mamãe perguntar por mim, diz que fui pra casa do Marquinhos.
_ Mas já vai sair de novo, piá? Não senhor! Trata de ficar em casa porque eu sei que hoje o menino ainda não estudou.
_ É por isso mesmo. A gente vai fazer uma pesquisa juntos.
_ Vão é fazer molecagem. Faz a pesquisa aqui mesmo.
_ E seu tiver dúvidas, pra quem vou perguntar? Papai e mamãe vão demorar...
Dona Albertina olhou-me com embaraço, abaixou a cabeça, remexeu as panelas. Depois fitou-me séria e por fim se recompôs:
_ Pois me diz, piá, o que a professora quer?
_ Ora, Dona Albertina, a senhora me ajudando numa pesquisa da escola? Tem muita graça...
_ É só perguntar.
_ Muito bem, Dona "sabe-tudo" ... o que a senhora entende sobre a independência?
Escrito por Raquel às 22h51
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_ Muita coisa!
_ Ah, é? - Indaguei com uma pontinha de sarcasmo. - Pois diga, então!
_ Bom, a independência... é quando alguém não depende do outro, ou então quando alguém depende do outro, mas esse outro também depende do alguém. Aí um dá liberdade pro outro porque sabe que precisa dele. Porque se só um depende do outro, aí esse é dependente mesmo e o outro abusa porque quer mandar e desmandar no primeiro.
_ Pôxa, não complica.
_ Eu estou complicando, meu menino? Mas eu queria era descomplicar, explicar. Olha só: no fim do mês o salário que eu recebia dava justinho pra pagar a conta do armazém do seu Souza. Mas agora, ele aumentou os preços, o salário não aumentou... a conta só vai crescendo. Aí eu dependo da "boa-vontade" do seu Souza.
_ Ah, não, o que a sua independência, quer dizer, dependência, tem a ver com a independência do Brasil?
_ Essa é boa... então eu não sou brasileira?
_ Dona Albertina, longe de mim querer chamar a senhora de burra, mas até eu seu que o povo brasileiro conquistou sua independência no dia sete de setembro de... Bom faz muitos anos.
Dona Albertina olhava-me com piedade, Aquilo irritava-me. Continuei meu discurso com ar de muito experiente:
_ E hoje nós somos independentes graças a Dom Pedro que gritou "Independência ou Morte"!
_ Então te enganaram, meu filho, porque nesse caso o povo levou foi a morte. E papo findo.
Projetei uma gargalhada estrondosa na presença da humilde mulher que, com afinco, defendia suas idéias. Ela olhava-me com piedade. Como soavam arrogantes suas palavras humildes.
( Continua)
Escrito por Raquel às 22h50
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Acabei desistindo da pesquisa, muito mais por preguiça que por falta de informação. No entanto, se a conversa com Dona Albertina não rendera um grande trabalho, ao menos deu-me uma idéia para contornar comodamente a situação. No outro dia, tinha na ponta da língua a seguinte frase:
_ Professora, não fiz a pesquisa porque não posso escrever sobre a independência de um país que, ainda hoje, é totalmente dependente.
_ A professora , pasma, disse que desejava conversar comigo no final da aula. Assim, antes de ir embora, reteve-me alguns minutos e deu-me os parabéns por ter "um grande espírito crítico".
Não tive coragem de contar a Dona Albertina o ocorrido. Mesmo porque eu não entendia ao certo o que tinha ocorrido. Ganhei parabéns e nem sabia direito o porquê. Mas não fazia mal... não eram meus, afinal!
Hoje, quase dez anos depois, Dona Albertina repousa suavemente no pequeno cemitério de Santa Maria das Dores. Tenho saudades suas. Tratou-me com a dureza e o carinho que merecia a rebeldia de minha meninice. Fecho os olhos e coloco-me a imaginá-la. A imagem aos poucos se forma, nossos olhos se encontram. Perturbo-me, constrangido. Vacilo, ameaço a abaixar a cabeça, mas acabo sustentando o olhar e enfim ela se abre num sorriso... livre e puro.
É novamente Setembro. Ponho-me a pensar quantas professoras, de quantas escolas, não estarão pedindo aos seus alunos uma pesquisa. Muitos deles escreverão sobre um Brasil independente. É pena que serão poucos os que terão por perto uma Dona Albertina, essa mulher de olhar duro que lhes possa mostrar o Brasil em dependência.
Escrito por Raquel às 22h48
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Receita de bolo
2 ovos
1 xícara de açúcar
3 colheres de manteiga
3 xícaras de farinha de trigo
2 copos de leite
Chocolate em pó a gosto
1 colher de chá de fermento
Junte o açúcar, a manteiga e as gemas, bata até formar uma massa homegênea. Reserve as claras. Acrescente a farinha de trigo e a noite o vinho e os dois olhos na rua de São Paulo pós curta e café às duas e meia asse em fogo brando Pina bausch sexta feira sem falta será que alguém lê isso? Bata as claras em neve e acrescente o fermento. Aqueça o forno e asse em fogo brando.
Escrito por Raquel às 01h34
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