...
Às vezes penso coisas que nem eu mesma sei que sei. E pularia de um prédio nessas horas... Mas ás vezes... É como se tivesse uma lacuna, lacunas enormes de vida. Será que preencher todos, todos os espaços seria a solução? Preciso de mim mesma, preciso tanto de mim mesma... E até que ando me tendo mais... Que eu não me perca, que eu não me perca!
Num mundo onde não se tem raízes nascem árvores voando, voando sem sementes. Monstruosas árvores em galhos marrom-verdes assombrando, passando pelos meus dentes, batendo, puxando-me pelos cabelos. Monstruosa! Sou eu. E me quero assim mesmo. Eu ainda sou melhor do que se não fosse. Perder-me é tão fácil, tão fácil, tão doce... Ah, como eu me perderia, com que facilidade eu dormiria com os anjos... Como todas as mães sempre quiseram.
Bebo o último gole de café. Mas café frio é mais amargo. E o último gole é uma lástima. Resto de pó nos meus dentes, como nicotina amarelada. Mas o vício que tenho, sempre tive, não é esse. E não é cigarro. E não é quase nada. Sou tão cega, sinto que sei tão pouco...Sou medíocre por ser quase boa...
Mas as pessoas também não sabem...
Sabedoria é esquecer e recomeçar.
Sempre?
Jogar fora as duas primeiras páginas de toda criação.
Ter só os vícios aceitáveis.
Falar coisas agradáveis.
Cultivar um conformismo sensato.
E ser feliz por obrigação.
Eis o contrato!
Escrito por Raquel às 01h55
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DEPOIMENTO
Hoje eu gostaria imensamente de dizer algo importante sobre nós, árvores. É que nós, silenciosamente, observamos os homens com toda paciência e atenção que só as árvores podem ter.
E como correm, esses bichinhos apressados, emitem sons altos e morrem de medo de deixar os ninhos. Quando o fazem, uma vez que suas pernas curtas não conseguem galgar longas distâncias, constroem máquinas barulhentas que lhes economizam os músculos e os levam a lugares onde nós, imóveis sobre nossas raizes profundas, jamais sonharíamos estar. E como fazem caretas e com que facilidade saltam gotas d'água olhos abaixo (esse líquido tão precioso que nós jamais poderíamos perder freqüentemente em tal proporção).
Na verdade, penaliza-me vê-los sempre cansados, sempre correndo, emitindo sons nevosos, ora graves, ora estridentes. De que lhes vale correr o mundo se mal conhecem o chão onde pisam? E pisam em tantos lugares que, ainda que tirassem os sapatos, colocassem as mãos e os pés no chão e provassem a terra, sentiriam apenas o gosto amargo de pó deixado por solas de sapato. Nós, no entanto, conhecemos o gosto da terra, o sabor da terra. Sabor suave, fresco. Nela criamos raízes e elas nos sustentam, nos dão a base para um crescimento forte e sadio. E somos então livres pra rumar o céu, cortar o ar. E isso não nos dá medo, pelo contrário, nos dá muito prazer. Simplesmente porque temos a certeza de que, quanto mais alto formos, maiores e mais fortes serão nossas raizes, assim como mais influentes em sustentar o nosso "ser árvore".
E o mais surpreendente de tudo é que, mesmo sabendo que de uma semente nasce outra árvore, nos emocionamos com os caminhos secretos da natureza e sua magnífica perfeição. Romper a semente, despontar sobre a terra úmida, preparar as folhas (e como têm folhas as jovens árvores. E é com esmero que as preparam).
Pobres pequeninos... Se ao menos pudessem enxergar-nos do alto de seus poucos metros de altura... mas quando muito vêem nossos troncos espessos que lhes trazem lucros.
Se pudessem ouvir-nos... eu lhes contaria histórias que a mãe natureza ensina... mas eles não conseguem compreender nosso silêncio.
Se pudessem ao menos enxergar-nos... conheceriam segredos tão comuns ao vento, à chuva, à terra, às formigas... E que os homens ignoram... Mas como poderia ser diferente se não conseguem nem mesmo perceber que todos nós, seres viventes, precisamos de raízes, seiva e folhas?
Com poucas, raras raízes, a seiva esgotada, as folhas pesadas, o homem corre... Meu Deus, pra onde?
Escrito por Raquel às 22h18
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|