E TUDO É APATIA
Quero escrever, meu Deus! preciso escrever urgentemente! Como estou sufocada, como estou apática! As coisas acontecem,simplesmente acontecem. E eu as assisto confortavelmente do posto onde me encontro. Às vezes me aborreço, choro um pouco. Mas no mais das vezes tudo o que acontece já é por si só um consolo. E eu me habituei a ser consolada...
Pessoas morrem nas filas dos hospitais, o governo acha que cuidar da saúde pública não é dever seu e nós dizemos "sim, sim senhor"! Isso não importa? Mas se importa então chore, perca um pouco dos cabelos e depois "faça"! mesmo que só com a ponta do lápis,faça!
E os meninos continuam a exigir das mulheres a candura e a dignidade que eles não têm! Não são homens, são meninos. E a dignidade me aborrece, afinal. E eu continuo num silêncio de vestal. Como isso é grave, como me irrita!
E muitos continuam a dizer que não vêem maldade em mim. Ah, seria tão bom e seria tão frágil... O mundo me quebraria aos pedaços e eu nem ao menos sentiria dor. Mas continuo inteira. Cruelmente inteira.
Quero escrever, vorazmente e com tal fome escrever.
Quero beber o Rio de Janeiro inteiro, seus mares, suas serras, sua gente... E me engasgo a cada gole. Mas ainda posso escrever, posso escrever, posso escrever...
Posso, passo e paço... Passo sem maiores expectativas. Quanto ao meu paço, comprarei com os lucros.´Sim´porque já investi a alma no mercado de trabalho, não é possível que não dê lucros. Mas não desanime, ainda permitem que você escreva. escrever pode ser a sua salvação. Agarre-se a ela, enquanto é tempo. E não espere a religião dos homens, porque eu sei que ela cada vez menos te sustenta.
Amanheci em cólera... E nem ao menos sei cerrar os punhos, ranger dentes, gritar, quebrar coisas... As coisas seriam as mesmas e no entanto eu estaria livre da apatia. Mas tenho medo, ela já está tão intrínseca em meus órgãos que tenho medo. Não, os olhos ainda se salvam, os olhos vibram. Como eu vos amo, meus olhos... Com a alma, porque nem sequer o coração consegue vibrar, ele está apático.
A apatia tem me matado com sutileza e doçura... Doçura que se confunde com harmonia e bondade. Minhas expressões nunca conheceram tanta serenidade... E tudo é apatia! Mas ainda existem os olhos e afinal eu ainda posso me salvar. Posso mas sem paço. Melhor não: Passo.
Escrito por Raquel às 13h47
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