Um dia qualquer em algum momento da vida
A Ave Maria de Gounod me emociona em plena quarta-feira. Em plena quarta-feira de manhã! Enquanto espero a aula começar, ouço um amigo querido cantar: Ave Maria. Em pleno hospital : Ave Maria!
Hoje está um dia bonito, sol nessa cidade cinza! Hoje, quem diria... Não está mais frio.
E já sinto saudades... Do amigo que ainda nem foi embora, da casa, do meio do país, do ninho. Banzo, é o que dizem : " Goiano sente banzo, sabe? " Mas não, eu não sabia. Era saudade...
Ah, os pequeninos. Os protótipos de gente da pediatria. Tão cheios de dedinhos e pezinhos e mãozinhas... Os filhotes de gente. Como não morrer de amor por eles? Como fazer o exame físico? Tão pequeno... Meu pequeno paciente que me olha desconfiado. Toco nele e parece que vai quebrar. Choramos os dois.
É a vida... Nascendo, se formando, crescendo... Nesse choro esganiçado, em olhinhos assustados... Que depois crescem e se assustam mais ainda. Que depois... se acostumam com o mundo e choram de novo: ave Maria!
Ave Maria de Gounod.
Escrito por Raquel às 02h30
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BEBER ÁGUA
Não, Maria, não beba água o tempo todo, respire um pouco também! Passe um pouco de batom nos lábios...
Maria, as coisas não são assim tão claras... As coisas têm cheiros, as coisas têm graça, as coisas coçam na ponta da língua...
O riso, a fala...
Tanta água se passa e você, Maria, nem vê. Bebe cansada, apressada. Maria nem sabe beber...
Se ao menos olhasse... O copo enfeitado, o filtro de barro...
Ou então...
Maria, meu Deus, amanhã vai chover! Quebre o copo de vez, deixe um pouco de chuva entrar.
"Amigo-da-onça", responde alterada.
Bem firme entre os dedos, o vidro contendo água, a sua água. Leva à boca um gole, mais um, três ou quatro. O tempo abocanhando os risos, as falas.
O tempo, Maria, vem ver!
Bebe, engole, engasga...
Maria nem sabe beber.
Escrito por Raquel às 02h21
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