NO CONSULTÓRIO
Doutor, eu sinto uma dor...
Como?
Surda.
Onde?
Na sala de jantar.
Desde quando?
Não tenho certeza...
Procure se lembrar...
Acho que, talvez, não posso dizer...
Insidiosa?
Não! Começou de repente, ah, doutor, foi tudo tão rápido...
Tem outros sintomas?
Tenho. Terríveis!
Exemplifique.
Doutor.. eu sinto o coração bater...
Desde quando?
Há uma semana...
Devagar ou rápido?
Depende... às vezes bem devagar, lento e exato, como passos secos... às vezes tão rápido que tenho medo... Ele sobe à garganta...
Engula.
Não posso, engasgo.
Algo mais ?
Sim, o ar. Tenho tido ar nos pulmões.
E ainda?
Frio na barriga!
Continue!
Olhos arregalados.
Muito estranho..
E dentes que batem, cabelos que caem, unhas roídas...
É grave.
E às vezes eu choro, mas às vezes estou tão feliz que rio, dou gargalhadas!!!!
Lamento muito...
E tenho falado, sabe? Imagine...
Imagino!
Doutor, eu vou morrer!
A senhora está certa disso?
Estou...cansada...
Shhhhh, não fale, não vale a pena.
E eu que nunca tive ...
Não pense em nada, não diga nada, não sinta... Concentre-se... Isso, assim, devagar... Nada tem o poder de perturbá-la, nada a incomoda, nada que valha a pena existe... Shhhhhh...
Agora diga: Trinta e três
Trinta e três...
De novo: Trinta e três
Trinta e três
De novo: trinta e três
Trinta e três.
-Tempo-
Dor?
Muda
Coração?
Parado
Pulmões?
Vazios
Olhos?
Nublados
Barriga, dentes, cabelos, unhas?
Atrofiados.
Ótimo! A senhora não tem mais nada.
-Despedem-se cordialmente.-
Escrito por Raquel às 21h13
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