REVERSO


ADÉLIA PRADO

"Cantiga triste, só pode com ela quem não perdeu a alegria... Por prazer da tristeza, eu vivo alegre."



Escrito por Raquel às 21h03
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O GRANDE HOMEM

 

  O menino olha a rosa, temeroso. Ela se agita com o vento, cada vez mais perfumada.Os lábios prensados entre os dentes pedem o que a mão não quer fazer. Está tão perto, se esticasse um pouco mais o braço...

  - Vamos, filhinho, pegue a flor.

  Mas flores são coisas pras meninas. Seria tão constrangedor...

  - Não.

  E abaixa o braço depressa, antes que um olho de vidro e um estalo gravem pra sempre que ele, ele que já é quase um moço, se aproxima de flores.

  - Não mamãe! Isso é coisa de menina.

  Era o que certa vez lhe haviam dito e era mesmo verdade. Sempre via as meninas com flores nas lancheiras, nas pastas, nos livrinhos... Os meninos não! Carregavam suas pastas sempre cheias de máquinas fortes, de puro aço, estampas de carros da última geração

  - Mas meu amor, a rosa é tão bonita...

  E não é que é mesmo bonita? Ah, por que tinha que ser tão bonita...

  - Não, mamãe!

  Toda vermelha... E o braço está tão perto...

  Mas seu pudor só permite tocar as folhas. Sente o perfume, no galho os espinhos, bem na ponta dos dedos... E os dedos agora teimam em procurar a rosa.

  - Não vou pegar não!

  - Então vamos embora!

  A mãe se impacienta e o toma nos braços. É melhor assim.

  Mas por que então esse nó na garganta? É tão bonita... E ele a quer, sabe que quer... Como dói querer! Mas acontece que homem não chora, não chora, chora...

  É mentira!!! O rosto molhado prova.

  Um pulo certeiro e já está no chão. Corre pra lá, corre... As rosas passam tão rápido...

  Não é mais o desejo de ter: está apaixonado. Como todos os dias nos apaixonamos cegamente pelo que é bonito.





Escrito por Raquel às 06h20
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UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES - Clarice Lispector

  - Você sabe rezar?

  - O que? perguntou ela em sobressalto.

  - Não rezar o Padre-Nosso, mas pedir a si mesma, pedir o máximo de si mesma?

  - Não sei se sei, nunca tentei. Isso é um conselho? perguntou com ironia.

  Ele se perturbou:

  - Acho que foi. esqueça o que eu disse.

  Mas ela não esqueceu.

  Lavava o rosto devagar, penteava-se devagar, já de camisola para dormir. Adiava, adiava. Escovou mais uma vez os dentes. Sua testa estava franzida, sua alma trêmula. Ela sabia que ia tentar rezar e assustava-se. Como se o que fosse pedir a si mesma e ao Deus precisasse de muito cuidado: porque o que pedisse, nisso seria atendida. Foi à geladeira, bebeu um copo de água: agia como se tivesse sido hipnotizada por Ulisses. E ainda um ínfimo movimento de revolta contra o hipnotismo a que parecia ter sido sujeita fazia-a adiar o que viesse.

  Pedir? Como é que se pede? E o que se pede?

  Pede-se vida?

  Pede-se vida.

  Mas já não se está tendo vida?

  Existe uma mais real.

  O que é real?

  E ela não sabia como responder. Às cegas teria que pedir Mas ela queria que, se fosse às cegas, pelo menos entendesse o que pedisse. Ela sabia que não devia pedir o impossível: a resposta não se pede. A grande resposta não nos era dada. É perigoso mexer com a grande resposta. Ela preferia pedir humilde, e não à sua altura que era enorme: Lóri sentia que era um enorme ser humano. E que devia tomar cuidado. Ou não devia? A vida inteira tomara cuidado em não ser grande dentro de si para não ter dor.

  Não, não devia pedir mais vida. Por enquanto era perigoso. Ajoelhou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.

 



Escrito por Raquel às 08h02
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FERNANDO PESSOA - A TABACARIA

    Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

 



Escrito por Raquel às 08h06
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É O QUE DIZEM...

    Havia um discípulo que, assim como o Mestre, queria andar sobre as águas.

    Ele a princípio consegue, mas depois afunda...

    O Mestre replica:

    _ Homem de pouca fé!

    E a vida continua...



Escrito por Raquel às 09h50
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ANITA

    Roubei! Tenho uma culpa de pluma e uma alegria muda: roubei.Com a displicência dos que roubam rosas em jardins cercados. Escondo meu crime, meu rosto vermelho, meu pecado alegre. E sorrio, menina. Roubei e guardei. Como posso estar feliz com algo que não me pertence? Como posso esquecer que, uma vez cortada, a rosa está fadada à morte? Mas coloco num jarro de águas claras e espero. Meus olhos de vidro cheios de ternura... As pétalas vermelho-vivas. Coloco meus dedos entre elas e sinto... A textura de um encontro tão suave... Consinto esse instante de rosa nos dedos. Sem pedir. Taquicárdica e invasiva. Dispneica e enrubescida. Entro e pego, pronto, já é minha. Meus dedinhos furados pelas pontas dos espinhos. Não me importo. Carrego a rosa e levo à boca dedinhos latejantes, gotículas de sangue e pétalas vivas. Sorrio: roubei. Tenho rosa nos cabelos, nos dedos, nos lábios. No jarro de vidro que olho embevecida. Ela ainda está viva. E continua se abindo...! Sinto o perfume e sou a criminosa mais feliz do mundo... Tudo tão bonito, tão efêmero... Ela caminha docemente através de segundos, minutos, algumas horas e talvez nem mais um dia. A vida tem dessas doçuras sem cura.

Escrito por Raquel às 15h41
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MAIS CONSIDERAÇÕES...

    Quando o "eu" vai do "mim" para o "nós" , mas na verdade quem vão são eles, eu penso : Puta que pariu!!!.. Psicanálise é um troço complicado à beça...

    Enquanto isso, no balcão da padaria:

    - O que você quer?

    - Viver.

    - Com ou sem mar-de-rosas?

    - Um pouquinho, por favor...

    _ Pra viagem?...

    - Não, pragora!

   

 

 

 



Escrito por Raquel às 23h41
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POST-REPOST...

  Gravidez... Será estado de graça ou é mesmo grave?

  O fato é que gerar me fascina... Tudo o que gera está vivo... E estar vivo é continuar, é mexer, é se contrair... É atestar que não se desiste... de respirar, de pulsar, de digerir.

  Tenho que gerar pra não esquecer que existo, tenho que gerar pra não cair de bruços nos abraços da apatia... Tenho que me engravidar do mundo pra me sentir toda transformada... e renovada a cada criação.

  É a arte crescendo em meu corpo, tomando da minha matéria pra se fazer gente, me fazendo ter fome com os requintes dos desejos. É o meu ser se doando inteiro à geração do novo... pra mim e pros outros.



Escrito por Raquel às 01h05
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...

  Uma reta paralela é aquela que só se encontra com a outra no infinito, um lugar onde o judas perdeu a meia, um lugar que sabe-se-lá-deus se existe... E se existe, se é que Deus sabe onde fica. Conclusão: a paralela não compensa.

Escrito por Raquel às 19h32
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ORDENS SUPERIORES

  _ Vamos organizar essa bagunça : Cada um com a sua própria felicidade na mão!... E deixa a felicidade do outro em paz...

...

  _ Quem for pego dando a felicidade pro outro segurar estará automaticamente se auto-anulando... E o maluco que ousar jogar a felicidade na cara do outro será imediatamente punido com intermináveis dias de depressão e desespero, estamos entendidos?

...

  _ Perguntas, por favor.

  _ Bom, se alguém me entregar a sua própria felicidade e se auto-anular, então o que eu faço com a felicidade do outro?

  _ Boa pergunta... Você pode usar o velho truque do: "Olha lá, o que é aquilo?" e sair correndo. Uma alternativa mais elegante é dar uma disfarçada, fingir que vai pegar alguma coisa no chão, depositar delicadamente a felicidade alheia ao alcance do pobre anulado e sair de fininho.

  _ A segunda me parece uma atitude mais humana...

  _ Sim... Quero dizer, não! O que vocês têm que entender é que não se pode ficar largando a felicidade por aí sozinha ou na mão de outro. Ela precisa de cuidados diários, estou sendo claro?

  _ Sim, Senhor!!!

  _ Muito bem... Vocês todos fizeram uma ótima aquisição! Se cuidarem bem dela, durará por toda a vida...

 



Escrito por Raquel às 18h19
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  Tem sentimentos que não se explicam. Dar um presente, por exemplo... A alegria que se sente em dar um pouco de si ao outro querido é inexplicável. Pensa-se no outro enquanto se escolhe: às vezes o presente é a cara do outro, às vezes é a nossa própria... E qual seria então o correto e mais apropriado? Não tem regra, o importante é que uma ponte se forme. Engraçado é que, na maior parte das vezes, quando o presente é útil e prático, a ponte que se forma é mais fraca e se dissolve mais rápido no tempo... É justamente nas coisas inúteis que ela se forma com as vigas mais fortes. Mas porque, meu Deus, um ser assim tão equivocado? A existência humana não pode ser prática?...  Deus não se dá ao trabalho de responder. Concluo eu mesma: Pára de pensar e dorme!!!



Escrito por Raquel às 17h22
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...

  " Às vezes dá vontade de pegar a vida com uma, duas, dez mãos... E levar à boca... E trincar nos dentes!..."

Escrito por Raquel às 23h13
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CONSIDERAÇÕES...

    Paixão. Um dos complexos mecanismos da existência humana. Não consigo escrever nada inteligente a respeito... Paixão dá desespero. É impulso, é compulsão, é falta de escolha. Os personagens trágicos são apaixonados. Só é apaixonante quem se mostra vulnerável, donde concluo que: 1 - Paixão não é bom. 2 - ..mas é estimulante.

 

    Por que viver dá tanto trabalho? Por que tem que ser tão bizarro? E fazer tanto barulho? Por que o cosmos não pode ser vendido a 1,99? ... São mistérios que a humanidade talvez jamais venha a decifrar.

                      

 



Escrito por Raquel às 22h00
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SE...

  Artigo primeiro, parágrafo único:

  Por lei, todo ser humano que se preze, deveria se recusar a ser infeliz (Viver já dá tanto trabalho que, se não for pra ser feliz, simplesmente não vale a pena. É melhor devolver. Pede ressarcimento, diz que comprou gato por lebre, sei lá, inventa! Pede recompensa, denuncia pra todo mundo essa merda de vida! Anuncia que desiste! Mas aí então, uma vez rompido o contrato, pega a malinha e sai de fininho, sem muitas despedidas que isso é um atraso...de vida, ou de morte, ou do que você quiser que seja... O importante é não vacilar! Porque afinal - que ninguém seja enganado - morrer também dá trabalho e dói! Puxa vida... Não é fácil. Tem dia que nem pra morrer a gente serve...) Então,como eu dizia, por lei, todo ser humano que se preze, deveria ser feliz. E tenho dito, ponto final.



Escrito por Raquel às 22h07
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OLÍVIA

  Gosto de lamber meus textos, como filhotes de urso. Escrevo e se gosto, vou lendo, relendo, mudando vírgulas e pontos, emocionando-me de novo e várias vezes seguidas.

  Fico lambendo até que paro de sentir o gosto. Aí sei que é hora de parar... Deixá-lo sozinho pra que ele sobreviva por si só. E sem mim ele caminha no tempo, no espaço vazio das gavetas, no redemoinho da minha bagunça pela casa...

  Até que um dia aparece de novo. Não sou eu quem o procura, ao contrário: ele vem até mim e salta em minhas mãos de uma forma inesperada! Aí leio de novo... E dessa vez posso sentir o gosto ou não. Quando sinto, a alegria que me vem é a de um encontro não marcado com um amigo querido. Quando não sinto (ou não gosto), eu guardo. Porque a vida do texto, como a minha própria, não tem sentido... É justamente pela falta de lógica que ele vive... E delira... E pode um dia ser obra-prima.



Escrito por Raquel às 11h39
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